11.7.14

Da humilhação à humildade: o futebol deste fim de semana


Grande pátria
Desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
Cazuza


Ai ai.
O jogo da última terça-feira. Que dizer?
Vi em São Paulo, com amigos. Aqueles poucos minutos em que os quatro gols da Alemanha foram feitos passaram como um rápido e silencioso pesadelo: o pior dos mundos, o final agourento em que já não acreditávamos.
Deu vontade de escrever, mas eu ainda não tinha tido coragem de levantar a pena. E no entanto há algo a dizer, e é preciso dizê-lo antes deste fim de semana.
Anteontem eu conversava com Zé Miguel Wisnik, com quem assistimos à partida entre Argentina e Holanda. A conversa foi longe, porque Wisnik e o futebol sempre levam longe: passou pelo narcisismo, que Nuno Ramos já andou explicando por aí, e chegou a D. Sebastião e aos areais distantes em que o Rei se perde e se regenera o mito...
De fato, como esquecer aquela camiseta amarela tremulando enquanto o hino era entoado? Como se um morto-Neymar estivesse e não estivesse ali, para nos salvar e salvaguardar da decepção de subitamente saber quem somos.
Eu não invejo Zé Miguel Wisnik. Sua tarefa é explicar-nos, nem mais nem menos, o que aconteceu. Aguarda-se sua coluna deste sábado, n’O Globo, para saber que canto é esse em que nos metemos...
Mas o que eu mais espero deste fim de semana de decisões são duas coisas: o jogo de amanhã, contra a Holanda, e a entrega da taça no domingo, no Maracanã.
O jogo de amanhã, porque o que mais me assustou, em meio à procissão de sustos da terça-feira, foi o fato de que, em suas entrevistas logo após o jogo, Júlio César e David Luiz falavam, emocionados, como se a Copa tivesse terminado ali. Como se não houvesse uma partida no sábado. Como se não houvesse nada aquém da vitória suprema, da confirmação da nossa ilusão compartida, da imagem querida que pretendemos que o espelho devolva, plácida, irrecusável e inequívoca. O eu que só quer a si mesmo confirmado como o mais belo, o campeão dos campeões, não é um outro... E não há sujeito quando o eu é apenas ele mesmo, quando se recusa a descobrir-se outro, sempre.
Outro amigo com quem divido a angústia, André Botelho, suspeita que nós nos afundamos num arranjo técnico pobre e previsível, enquanto os alemães teriam mostrado que aprenderam o futebol-arte, enformando-o com a civilidade que nos é estrangeira... Seria a ambiguidade da nossa cordialidade que se perdeu, diz ele, e teríamos ficado “com o familismo vazio da família Scolari”. Na sua formulação perfeita: “E a seleção alemã soube explorar o melhor dos dois mundos, o nosso e o deles”.
André conversa com Zé Miguel. E eu, metendo-me no papo imaginário, arrisco dizer que Felipão foi tão bravo quanto fraco, na entrevista que deu, logo após o jogo.
Às perguntas banais, quase boçais, dos repórteres, respondeu dizendo que assumia a responsabilidade toda pela derrota, como se protegesse os seus “meninos” do momento terrível em que se descobririam incompetentes. Como um pai que nega ao filho o direito de um dia descobrir-se falho, Felipão proíbe a prole de entrar para o mundo adulto, que só começa quando o espelho se quebra e o sujeito tem que arcar com a dor de notar-se sozinho, diante da natureza inóspita. Não é difícil de perceber: o jogo só é pra valer quando se deixa transportar para esse outro campo em que o sujeito tem que se haver com o destino, sem a proteção mágica dos pais. Thiago Silva errou, e errou feio, quando fez aquela falta no goleiro da Colômbia e depois cometeu o desplante de fazer o gol, sabendo que a jogada tinha que estar parada, e que ele levaria o cartão amarelo que o tiraria da partida contra a Alemanha. Que ele, Thiago Silva, diga que foi “sem querer”, já é estranho, mas que o Pai-técnico apareça em seguida para dizer que “o meu menino não erra”, e peça à FIFA que o desculpe, é simplesmente lamentável. Lamento, Felipão, mas seria melhor botar os meninos a escutar Rita Lee. Essa mamãe não dá sobremesa não, cara!
Mas há que dizer: Felipão foi bravo também. Perguntado sobre a “dívida” que carregaria para o resto da vida, reagiu como alguém que se levanta do divã em sua última sessão de análise e afirma, alto e bom som: “nem dívida, nem crédito” (palavras suas), sou responsável pelo que fiz até aqui, mas não devo nada a ninguém. Fiz opções, assumo que as fiz, errei, e a prova de que errei está aí na nossa frente. Serei lembrado pela derrota vergonhosa, mas não devo nada a ninguém. A vida segue.
E eu diria: a vida segue amanhã, sábado, quando teremos que nos descobrir lutando pelo terceiro lugar, que de fato, e bem lá no fundo, é algo entre o primeiro e o último, entre o tudo e o nada ciclotímico em que mergulhamos. Aí volta Zé Miguel, no meu diálogo imaginário, que já não sei mais se é imaginário: dando um exemplar de Veneno Remédio para que eu o leve a Germán Labrador, que escreveu sobre a derrota arrasadora da seleção espanhola, no último número da piauí.
Há muito o que dizer, ainda, sobre futebol e política, messianismo e pátria, mercado e símbolo, dívida e culpa, o sujeito e a derrota. Que me perdoem os que não acham graça no futebol, mas sem graça mesmo é não perceber o alcance disso tudo. Numa última sessão (real?), minha analista, que é israelense e vive em Nova York, me conta que não conseguiu assistir ao segundo tempo do jogo contra a Alemanha, de tão angustiada que ficou. E no entanto, algo a intriga: todos sofrem derrotas mais ou menos acachapantes, mas será que só os brasileiros se sentem humilhados em tal grau? Não seria melhor reagir com humildade, ao invés de humilhação? Parece ter sido o que lhe disse um motorista de táxi haitiano, em Manhattan, logo depois do jogo.
Já quanto à taça, estou simplesmente gelado, pensando no que será da presidenta no domingo, no Maracanã. Tenho medo, por Dilma e por todos nós: o que “dirá” a vaia do domingo? Passaremos no teste da civilidade? Ou tomaremos todos no cu? Estamos todos fodidos, como prenunciou (de novo ele) Nuno Ramos?
Levei um puxão de orelha de outro amigo, que me disse que não era só a elite branca que estava nas arquibancadas do Itaquerão, no dia da estreia. Mas então quem estará lá, amanhã, na “arena” Mané Garrincha? Todos nós? Ou apenas eles? Mas então há "eles" entre "nós"...? Não somos um só? Nunca fomos?
Mais que uma ferida narcísica, talvez seja um ponto fratricida que ameaça estourar no domingo. Que possamos nutrir um ódio profundo pelos “hermanos” e flertar com a máquina de guerra alemã, agora toda envolta em gentileza com os nativos, é um tema em si bastante interessante, que no entanto me desviaria do assunto.
O que me preocupa mesmo não é a política continental. É a vaia nacional. O dedo em riste, o desejo de violação que mal se esconde no canto tosco que, sem que saibam os que gritam, talvez nos mande todos àquele lugar, onde não há proteção nem firmeza, porque a mãe-pátria nos traiu, e não nos resta nada além da decepção e da guerra.
O que será de nós, neste fim de semana?
Ai, ai.



10.7.14

Roots of the 21st century

I suppose this is the right time to read (or re-read) José Miguel Wisnik's Veneno Remédio [Poison Cure]. It's the most wonderful book on "soccer and Brazil," published in 2008 by Companhia das Letras, and forthcoming in Spanish in Argentina (of all places...). The following is an essay I wrote a couple of years ago, which was published in the Brazilian magazine piauí, and appeared in English in the Portuguese Literary & Cultural Studies. Translated from Portuguese by Flora Thomson-DeVeaux.


Why does no-one write essays of national interpretation anymore?

Some will say that this kind of essay has no place nowadays. Gilberto Freyre and Sérgio Buarque de Holanda wrote The Masters and the Slaves and Roots of Brazil nearly 80 years ago. We simply didn’t know as much as we do today, thanks to intervening decades of work by social scientists and historians. But if all this knowledge lets us write about Brazil with more nuance, it also stays our hand with the reminder that any attempt to set down national characteristics will be a merely impressionistic exercise, one that cannot hold up to a rigorous analysis of society and history.

Regardless, the essay of national interpretation is not and never was the product of accumulated facts. These essays don’t speak of Brazil as it is. Their horizon is another, radically different from that of purely scientific or historical studies; it is ethical, almost transcendent, and sounds out the nature of the collective. The essay asks not only how we arrived where we are, but also where we’re headed and even where we should be going. Its field of vision encompasses the past, present and future in a single continuum, taking an extremely long-term view of history, as if we were navigating on a current without knowing where it carries us. And the true essayist names our destination, making it into a fable where the reader can recognize himself.

And so, after decades of development in social sciences and historical studies, is there still room for essays that announce Brazil’s purpose?

The answer came some years ago, in the form of a book that may become the Roots of Brazil of the 21st century: Veneno remédio:o futebol e o Brasil, by José Miguel Wisnik. It’s lamentable that the book hasn’t yet provoked larger debates, especially in academic circles. Perhaps this shows some reticence regarding the book’s subject material, since not all intellectuals are prepared to take football seriously. But perhaps the problem is that the book points to an unresolved question: miscegenation. Not simple miscegenation, of genetic or phenotypic traits, but miscegenation as the fundamental rupture of patterns associated with order and discipline. Miscegenation, in short, as the mixture of the structures and principles of civilization. Which would be, shall we say, a fertile mess.

For Wisnik, football isn’t an escape valve for social tensions, or a banal form of entertainment, or the simple expression of economic and commercial interests. Rather, it’s principally a symbolic system which brings wide sectors of society closer to the real experiences of gain and loss – which, as such, would be felt and lived collectively. Either all lose, or all win. One can’t overlook the political and identity-related ramifications of this shared adventure.

The temptation to see a populist drive behind all this, a possible manipulation of the masses, is powerful but misleading. It’s true that fans’ devotion may be a form of wiping out any respect for difference (hooliganism is a reality), but aside from fanaticism there is an immense gradation of associative possibilities, various ways of identifying with what’s going on down on the field. The psychoanalytic framework of Wisnik’s argument won’t escape the reader: discussion of football turns into the analysis of complex mechanisms of transference. That is, what happens on the field has implications for the subject watching the game, because history is coded therein – and, as it happens, the destiny of not just the observer, but of all.

A fundamental difference between the game and manipulative mass phenomena like fascism, Wisnik will say, is that its members exist in the hypnotic state that moves them forward, avoiding anything that might give them a reality check (or an encounter with “the Real,” in psychoanalytic terms). The game, meanwhile, favors a mesmerizing battle always on the edge of the Real, and which will inescapably fall into it.  In fact, as mesmerizing as the game may be, when one plays for keeps, the risk of defeat is both assumed and lived, as if loss formed part of the dialogue the subject holds with destiny. In playing, one learns how to lose. But the fascist model sustains itself through the negation of any and all loss, avoiding the shadow of frustration and always searching, irritably and brutally, to sweep from the map those who might contribute to an unacceptable defeat.

Why “poison/cure,” the term Wisnik uses to characterize Brazilian football? The formula recalls the pharmakon, which contains within itself the seeds of both healing and destruction. The book’s argument is fairly simple, partly intuitive and unfailingly accurate: in its vision, Brazil lives in an imaginary oscillation between success and disaster. Either we’re the best, or we’re worthless.

The country, Wisnik says, “is either the recipe for happiness or a dead-end failure.” Nothing is possible between the two poles. The most perfect satire of this state of the collective soul is the “Brás Cubas Poultice” which Machado de Assis puts into his protagonist’s imagination; Brás Cubas dies as he conjures up a providential solution to alleviate “our melancholy humanity” once and for all. Against profound sadness, eternal happiness. Machado’s lesson is that we’ll die of this yet.

Veneno remédio is a book in which football-related erudition is paired with cultural and philosophical analysis. If the argument that it proposes is closer to the radical uncertainty of Sérgio Buarque de Holanda regarding Brazil’s future, the elliptical and dense nature of Wisnik’s prose brings him, at least stylistically, alongside Gilberto Freyre. Or perhaps we can say that Veneno remédio plays midfielder between the two essayists, since the goalposts Wisnik uses come from their thinking. I shall limit myself to one question, a fundamental one even for those who don’t follow football. It has to do with something that, in Veneno remédio, is termed “the nonlinear nature of Brazilian football.”

Why are nonlinearity, ellipses and sinuous curves called upon to say something that goes far beyond the football field? How can this resistance to the rectilinear help decipher an entire social matrix and pose questions about collective destiny? The answer comes from a realization born of literature.

In addition to being a lover of football and a musician himself, Wisnik is a talented literary critic. Thus, Veneno remédio takes its initial inspiration from the distinction made by the Italian filmmaker and poet Pier Paolo Pasolini, who, in the early ‘70s, imagined the opposition between football played in prose, which he associated with European teams, and in poetry, a style identified with South American football and Brazilian football in particular.

The provocation has profound consequences for understanding the game from within. But, at the same time, it points toward different ways of playing the social contract – different ways of exploring the spaces of society. On one side, the European style (capitalist, urbane, First World, etc.), “linear and goal-oriented,” with “triangular passes, defensive emphasis, counter-attacks, crosses, and follow-through”; on the other, the Latin American mode (peripheral, rural, Third World, etc.), with its “creation of empty spaces, feints, autonomous dribbles, [and] a congenital tendency towards the attack.” Two systems of playing and two proposed civilizations facing off, even though the principles in question are present in each society.

Even with the proviso that the two methods aren’t exclusive, this brings us to a delicate moment when more irritable readers, suspicious of the “Freyrian” approach that praises tropical civilization in all its malleability and ductility, will pin Wisnik with an apology of tropical malemolência – as if each effective dribble, in all its dazzling material beauty, were the proof of the superiority of a society that sidesteps conflict, being unable to face it. Here one might see a superficial reading of the “cordial man” by Sérgio Buarque de Holanda, which the unwary tend to identify with the elimination of violence and the triumph of a “natural goodness” fully realized in this blessed homeland.

The reader in question is invited to swallow his irritation and put his lips back in their original position for a moment, before trying out his ironic smirk in the face of – just look! – one more thinker stepping into line behind Freyre. Discussing whether Wisnik is more or less Freyrian is frankly useless. Evidently there is something quite modernist in the study of the consequences of these dribbles, something in these “irruptions” that end up short-circuiting the linear order of clear objectives defined by the logic of means and ends, which is perhaps closer to Mário and Oswald than Freyre. Or perhaps that something is Tropicalist, dreaming of a civilization that constructs itself against the threatening order of technique and predictability, valuing a Dionysian freedom born of the pleasure and joy of the body.

The football coach, in this sense, is an unwanted castrator. If necessary, he will ask the genius to put aside his creative outbursts in the name of efficiency, because what matters are the results. This is a kind of Dunga or Parreira complex – who, not by chance, ended up playing the paradigmatic role of the castrating coach. They were hated because they would have pruned back exactly what Brazil did best.

This is not to say that castration and technique are unnecessary. Any psychological organization (including collective ones) develops in the space between the assumed and internalized rule on the one hand, and the space normally identified with “freedom” on the other. This “free” space would not exist without the established order. Transgression doesn’t exist without laws, just as freedom depends, after all, on the breaking of an internally fixed rule that functions on the subjective plane. To use the old psychoanalytic jargon: one doesn’t play well when the superego dominates, but one can’t let one’s instincts run wild, either – the id, that is, the “this” that, when uncontrolled, would plunge all into a war against all, with no truces and no end.

Leaving aside some of the book’s internal mirages, such as Wisnik’s enchantment with the unique character of football – which, as opposed to American football, supposedly lives on the edge of the imponderable, set against the cumulative and progressive strategies of the most popular American sports. There is something very interesting, in fact, about a sport in which the slightest and least expected details can decide the game. Soccer tends to give the sense that the best team isn’t always the one that wins, as if in the end there were a certain poetic justice waiting to redeem even the weakest. Meanwhile, sports like basketball and American football function via the linear accumulation of points, making it practically inevitable that the best will win in the end – the team with the best strategy, preparation, and talent, that is – thereby eliminating, so to speak, the power of chance.

It is the power of chance (yes, Mallarmé is also central in Veneno remédio…) that is at stake when the “superiority” of Brazilian football comes into play. But this is not chance as cosmic punishment, or as mythical determinant of history. The “chance” in question points toward the fertile power of uncertainty, that which opens into a myriad of possibilities, exactly because there is nothing that can close off or control the environment when one is talking about a truly poetic play – and there are many, beautifully described in the book.

Poetry (and football as well, with its epiphanic moments) lives on the edge of uncertainty, testing and pushing the boundaries of the possible, in that “band of structural spontaneity” which Wisnik attributes to football. Technique, however, works with the boundaries of the possible, bending itself to them and respecting them in a kind of reverence for the given.

One can then imagine the range of the “nonlinearity” postulated as a national characteristic by Veneno remédio. Instead of constituting a fixed and inescapable character, it is simply one more element in play, which Brazilians should come to terms with and which might even benefit them. From a “rational” perspective (developed, controlling, technical, etc.), nonlinearity is a cardinal flaw. But it is from this drug that Brazil will extract its cure; rather, it is through this poison that Brazil can dialogue with the masters of the world. In this sense football can be thought of as the “Brás Cubas Poultice that worked.” The idea is tempting, and made Wisnik call another Buarque de Holanda to the field during the middle of the game – this time, the son of the author of Roots of Brazil.

Observing a scrimmage between European boys and the sons of immigrants in Paris in 1998, Chico Buarque noted that the rich boys played like “masters of the field,” preferring “control of the ball as a way to occupy the field in an organized way,” while the poor boys were merely “masters of the ball.” The passage is worth reproducing for its striking conclusion: the immigrants’ sons, says Wisnik, echoing Chico, “take advantage of the opportunity in football to instruct themselves as best they can in the art of intimacy with the ball (developing, within the game, the splendid and wasted expertise that we know so well from the fleeting spectacle of the ‘stoplight jugglers’). Some people are equilibrados [well-balanced], others are equilibristas [acrobats].”

Between the well-balanced and the acrobat, the question begins to stir of the mastery of codes, and how much one can trust in the rules. The well-balanced rich boy plays as if the field were his natural plane, since every millimeter of it can and should be occupied rationally. The exception, of course, is the exact, wandering point where we find the ball, because it is there that the “poor boy” shows up to even the game (and the circus-like aspect of Ronaldinho Gaúcho is probably what leaps to the reader’s mind). After all, nobody told the poor boy that the field is his as well. This is why he should construct his marvels up and to the sides, always around himself, without losing the precious ball in its capacity as unstable point of equilibrium.

Still in the fathers-and-sons bracket, José Miguel goes on with the observations of Guilherme Wisnik, reminding us that the occupation of space is revealing when it comes to American history and the nation’s march to the West. In this one can see “the imperialist proclivity for conquest,” the tendency to advance point by point across the territory – this recalls not only the American football field, but also a grand poetic lineage leading “from Walt Whitman to Herman Melville, including John Ford, Frank Lloyd Wright and land art.”

We, on the other side (an imaginary “we,” naturally, as is usually the case in these essays), find our balance wherever and however we can. However, in Veneno remédio, nonlinearity is called in not simply to speak to the truth of a “jeitinho” or a “bossa” – “our things,” as Noel Rosa called them. It would be no use to gild these “things” and hang them on the wall of our illusions like trophies, telling ourselves that we are the best even if the rest of the world doesn’t know it. In short, this is neither self-condescension nor self-glorification. Veneno remédio is an urgent question about what to do with what we have: how to evolve, given the state of things?

At one point in the book when various authors are pulled in to say something about football, Wisnik recalls Mário de Andrade, who, writing about Brazil’s defeat to Argentina in 1939, imagined the Brazilians as “eleven hummingbirds” defenseless before the oiled platinum machine, as if a “Minerva-Argentina” delivered a masterful slap to the face of an “adolescent, completely drunk Dionysius” who, in his divine stubbornness, still invented “a few subtle trips, a few samba-like ways of deceiving,” and “a few lightning-swift volleys, a radiant, Pan-like thing, full of the most sublime promises.”

Here is the secret of Veneno remédio: a sublime and unrealized promise, a spasm of beauty and genius that consumes itself in the very same instant, which empties itself without becoming productive – a fleeting and useless spectacle, like the boys juggling at the stoplight. But how to turn this unproductive productivity, this glorious moment without consequences, into a project, a chain of clear and stable consequences for society? How, out of the incessant pleasure that drives Macunaíma throughout his antihero’s saga, to construct something? Must Macunaíma be sent to school to learn the technique that he ignores and scorns on principle?

Garrincha is Macunaíma, Macunaíma is Garrincha. Beyond the “biographical” similarities with this saci-curupira with the crooked legs – exceptional birth, abnormal growth, simultaneous precocity and retardation – Garrincha is the master of the dribble, and takes it to unimaginable extremes of grace and curvature. And the Macunaímian dribble of Mané Garrincha is, for Wisnik, the fortuitous conjunction of three terms: ellipse (a flight from linearity which produces a poetic effect, on the rhetorical plane); slip (a flash of the unconscious, in Freud’s vision), and syncopation (a contrametrical accent which is found in the intersection of European and African rhythms). All three are dribbles, in their own way: the ellipse is a way of getting around the next logical step, creating a suspension and an unexpected swerve in the discourse; the slip (Witz, in the original; ato falho, in Portuguese; mot d'esprit, in French) is the shift that gets around the censorship of the conscience and lets loose that which was guarded in the unconscious; syncopation makes it possible for the body to slide between the beat and the backbeatdoubling over to fit into a space that resists the military step of the march and then expanding in those swaying requebros of capoeira that, to the eyes of the more traditional writers at the turn of the 20th century, seemed like a simple, regressive element, dangerously Africanized – and which in the modernist view was very justly a treasure, something closer to our purest essence (or, perhaps, in Mário de Andrade's words, our most “sublime promises”). 

But nations aren't made with Garrinchas alone, and we may ask up to what point a stubborn and premodern amateurism can still exist in an advancing society which is starting to seriously test the waters of its future. Veneno remédio has appeared, not by chance, in a moment when Brazil is testing out the strange feeling that, just maybe, there might be a place for it at the table of developed nations. Evidently, the tension between technique and freedom, predictability and spontaneity, virtual and real, becomes an agonizing question for the country and explains, at least in part, why the “essay of national interpretation” has been reborn exactly now, in the midst of the thrust of the past decade (God only knows where it will carry us). When the transcendent question – about the collective's fate – starts making sense and increasing its volume, the essay becomes urgent and lets critical imagination loose the ties of strict objectivity, just as necessary as it is limiting.

Best not to get into Pelé, leaving football lovers with the task of looking for the dialogue that Wisnik strikes up with Tostão and Décio Pignatari in order to understand the utterly exceptional player who seems to have “brought the virtual into the present.” Let us remain with the unresolved (and unresolvable) pendulum between technique and freedom, the well-balanced and the acrobat, which throws us into a sort of tunnel in the history of ideas, at the end of which are the luminous debates of Brazilian modernism, which in turn become relevant in the discussion that, in the midst of the dictatorship, the critic Antonio Candido made of the constant swing between “order” and “disorder.” A restless, provocative swing, which Candido would famously name – not without irony – the “dialectic of malandroism.”

When he published his essay in 1970, Antonio Candido analyzed Leonardo, the protagonist of Memoirs of a Police Sergeant, by Manuel Antônio de Almeida. Here, we can see precisely the problem that Wisnik tackles in his essay. In the 19th-century novel, according to Candido, “we can say that there is a positive hemisphere of order and a negative hemisphere of disorder, functioning like two magnets that attract first Leonardo’s parents and then Leonardo. The dynamic of the book supposes a seesaw between the two poles as Leonardo grows up and participates in one, then the other, until finally being absorbed by the conventionally positive side.”

It so happens that, in a critical reading of a clearly modernist bent, Antonio Candido made – according to Wisnik – “a surprisingly positive reading” when he concluded that the novel produced, in its atmosphere of negotiations, “an enchanting ‘world without blame’ with a democratic and tolerant spirit, against all stigmatization and witch-hunts.” But Wisnik sees a discreet preference for the paradoxically positive value of disorder. It’s as if Garrincha had won the battle, if perhaps not the war.

For pointing out the ways in which social structures permeate novels, Antonio Candido’s arguments would be fundamental for Roberto Schwarz, who criticized Candido’s flirtation with disorder – affirmed precisely when Brazil needed some order to face off against the arbitrary will of the dictatorship – in an essay titled “Assumptions, Unless I’m Mistaken, about the Dialectic of Malandroism.” But before we lose ourselves in this thicket of interesting issues, we must note that the “dialectic of malandroism” refers to a balance, a “seesaw” between two poles, without necessarily indicating that either will prevail. Neither poetry nor prose, neither technique nor epiphany, neither football nor futebol – what we have is first and foremost radical irresolution.

The productive reading of Veneno remédio demands not only that the reader take the title’s provocation seriously, but also that he or she pay attention to the fact that its argument is carefully set up in successive oppositions, rich in their irresolution and tension: “prose and poetry,” “leather ball and capital,” “ritual and game,” “mud and grass,” etc. One need only note how the essay is constructed to see that Wisnik is writing about an indivisible (not by chance – indivisível is the title of his recently-launched album) unit of contradictory forces, a perpetual pendulum that proclaims itself to be the deepest truth about Brazil. Not an essential truth, frozen in space and time and buried in the geological depths of “being,” but a truth of tension and irresolution. And the impression remains that, whenever they can, Brazilians will fall towards the pole of disorder, because it is there that clashes are “softened” and the world is potentially more “open.”

Here we return to the bone of contention, because this supposedly malleable and porous side of things indicates precisely the bloodless confrontation, cordiality in its most generous aspect – opening the curtains of the past to reveal the thorny question of the legacy of slavery, and how it was established and developed in Brazil.

One can’t accuse Wisnik of fleeing from the problem. On the contrary, he tries to take the bull by the horns when, taking up the dialogue of the exiled critic Anatol Rosenfeld with Mário Filho about the presence of blacks in football, suggests a sort of “racial democracy on the field.” In the wake of the first debates about affirmative action in the country, it’s worth reproducing the passage in full: “We can say that racial democracy in Brazilian football prescribes (in the medical sense, of recommending a cure), but does not describe, Brazil. Or perhaps that it describes realized and significant possibilities that do not form a complete system. In other words, the country does not align with itself; racial democracy has to be thought of as something which both is and is not. This paradox is the crux of the problem.”

The question is how to leave the football field and realize that which is only realized as a fleeting and spectacular moment – how to spread this promise and turn it into reality or a “system” allowing society to dribble the harsh opposition between classes and races. The problem becomes even more glaring when class and race overlap and mingle so much and so often as they do in Brazil.

Miscegenation is not, however, the simple promise of mixture. Wisnik sees no “cosmic race” on the horizon of this civilization, nor is there any intention to deny racism in Brazil (racism “à brasileira,” as Roberto DaMatta would say), or negate the importance of the negro movements. What we have in Veneno remédio is a vote for the plurality of a composite formula, as if a new, more “porous” model of civilization could spring from it, one with a healthy disregard for the straight lines that clarify, with no margin of error, who is on which side.

The path is treacherous and Wisnik knows its traps well. The biggest is Gilberto Freyre’s “Lusotropicalism,” which, in its most unfortunate and reactionary moment, flirted with Salazarist Portugal and advocated for the exceptionality and the gentleness of Portuguese dominion over the tropics (back when Portugal still had its African colonies, that is). One could argue that the political solutions of a Lusotropicalist Freyre weren’t fully revealed back in 1933, in The Masters and the Slaves. But let us stop walking on coals and return to the horizons of Veneno remédio.

The ungovernable principle – which Wisnik calls, with entertaining and ironic precision, “anthropological π” – suggests that we will always be approaching some undefinable quantity in this laboratory, which would be, essentially, football. Something in the sport, like a reigning uncertainty, recalls Caetano Veloso’s diagnosis when he, looking in the North American mirror, reminds us that “down here, uncertainty is the rule.”

The Tropicalist wave, which others besides Caetano and Wisnik have joined (Hermano Vianna, for one), is carried on the belief in this threshold space, a place where order slips and ultimately fails, permitting the entrance of an unexpected, unclassifiable element. From here are born racial theorems, or postracial ones, which not a few critics identify with a perverse form of self-negation by a country that never quite settled its scores with blacks. But this would be a way of putting authors like Wisnik, Caetano, or Hermano (different as they are), into a bubble where they are made to become representatives of a revived and poorly understood Freyrianism. This violent, reductive interpretation is a way of not hearing what they’re saying.

Work on and reflections about the limits of order are a vital way of thinking about the limits of classification, not to mention the limits of social spaces. Which doesn’t mean, of course, that the playful dis/order on the field can break down the real, cruel barriers off the field. The problem is that this problem doesn’t solely exist on the plane of ideas, and as such forces us to face historical and sociological questions. After all, the “alchemy” of the poison/cure – Brazilian football – has yet to produce the formula to bring democracy into the plane of the Real, to provoke that “Reality check/fall into the Real” that Wisnik proposes, and which may be the only effective way of breaking the enchantment of any magical formula. But once the spell is broken, what will become of Brazil?




24.6.14

De Benjamin a Fernandinho: para além da alegoria, o meio de campo

Doze anos morando fora são suficientes para produzir mudanças. Os intervalos longe do país fazem com que cada nova visita se converta num ritual.
Primeiro, há a adaptação rápida, ligada à descoberta dos novos sinais (aquela banca de jornais estava ali antes?), e ao contraste dos tempos (a dificuldade de se readaptar imediatamente à violência do trânsito brasileiro, por exemplo).
Depois, há a adaptação lenta, relacionada à longa duração. Em resumo, as correntes profundas continuaram correndo enquanto estávamos fora, e agora é melhor acelerar, do contrário se perde o bonde da história. Alguma coisa aconteceu, mas não há sinais claros do que foi, nem se trata apenas de acertar o relógio.
Esta segunda adaptação é a mais interessante, justamente porque difícil e complexa. É como tomar o pulso, sem nunca poder sentir o que o indivíduo está vivendo: ouvir os conhecidos, as pessoas nas ruas e no comércio, e perceber que algo esteve rolando todo esse tempo, enquanto estávamos fora. Nem a leitura dos jornais, nem a comunicação com amigos e colegas brasileiros, nada dá conta dessa corrente, quando se está longe. É preciso estar aqui.
Quando cheguei, em maio, o vai-ter-copa-não-vai-ter-copa ainda marcava o tempo e acionava o pêndulo das paixões. Contudo, refeito o meio de campo, parece que a Copa vai bem, obrigado. Nem o mais atrabiliário espectador há de negar que, nos campos, a bola está rolando, e no geral tem sido uma maravilha vê-la. O que não quer dizer que a FIFA ou a CBF tenham se regenerado, ou que o dinheiro do BNDES tenha sido bem empregado. Mas o que acontece dentro de campo, como sempre, dá senhas preciosas do que se passa fora dele.
É uma tentação danada alegorizar tudo. Outro dia, enquanto assistia à fragorosa desclassificação da Espanha, confessei a um amigo que, para mim, Marcelo era o verdadeiro intérprete do Brasil. Como uma inauguração às avessas, seu gol contra, na estreia com a Croácia, era o sinal inequívoco do nosso estado, e talvez do nosso Estado. Qual espasmo, o fluxo irreal de entusiasmo que eu via há dois anos se convertia agora num empuxo macabro, movimento reverso da esperança, e comprovação da esquizofrenia pátria: ou esta coisa chamada Brasil funciona plenamente, ou para e afunda. Não há meio termo. Aliás, a fórmula wisnikiana do "veneno remédio" segue fulgurante. Com exceção de uns raros textos nos jornais, ficamos no vai e vem infantil entre a fanfarronice da pátria-amada-agora-é-hora-de-torcer-e-lembrar-que-somos-um-povo-unido, e o mau humor crônico de quem jamais se entrega à complexidade do jogo. Tudo permeado pelo baixo nível geral da imprensa e temperado, aqui e ali, pela hidrofobia de direita que comanda a pena dos articulistas que bem conhecemos.
Enfim, ao iniciar, a Copa parecia apenas confirmar a oscilação entre o sucesso e o descalabro, sem admitir coisa alguma entre esses dois polos neuróticos. A própria estreia fornecera mais uma peça para meu futebol alegorizante: a vaia a Dilma seria o sinal do seu isolamento, num estádio tomado por um público preconceituoso. Não se tratava apenas de representação da população (o fato de que o Itaquerão se parecesse a um corredor de shopping center em bairro chic, no caso), mas de leitura das pulsões, das correntes profundas. Assim, o xingo tosco e violento seria a senha de uma separação definitiva entre o periclitante projeto petista e a posição rancorosa de quem só sabe ver o mundo com um cartão de crédito nas mãos e os bolsos recheados. Na minha alegoria, o povo estaria de fora, alheio à encrenca da vaia, sabendo que afinal o que se dá em campo é mais interessante que o seu entorno, aí incluídas não só as arquibancadas brancas, mas também as famigeradas "manifestações". (NB. Por aquilo que “se passa em campo”, refiro-me aos noventa minutos de bola rolando, porque a Abertura, afinal, é só uma peça para agradar velhinhas. Diga-se de passagem que o indiozinho que pedia demarcação ficou fora da foto, enquanto as loiras rebolaram à vontade para as câmeras. Nenhuma surpresa: A FIFA é o que é, e nós somos o que somos.)
A leitura alegorizante é quase sempre empobrecedora. Quem pousou os olhos em Walter Benjamin sabe que a alegoria é o grande divertimento do melancólico. E o melancólico é um sujeito que desistiu de intervir, construindo interpretações que, tão pronto se erguem, já são ruínas diante do que se passa. Há um poder insuspeitado nessa construção moderna de ruínas, mas elas são insuficientes quando se trata de pegar o pulso e sentir o que aflige o paciente.
Como não sou Baudelaire, minhas alegorias (o gol contra, a vaia) eram ruins, mas não porque fossem necessariamente equivocadas. Sustento que Marcelo disse algo quando botou a bola para dentro do nosso próprio gol, e que a ofensa gritada em coro tem um caráter classista (no limite, machista, e talvez até racista). No entanto, o problema não é o que a alegoria diz, e sim o que ela não diz.
O alegorista olha para o passado e esquece que o vento da história segue soprando. Para um melancólico como Benjamin, o vento coloca ruína sobre ruína, e o que chamamos de progresso é o acúmulo dos fragmentos, em meio aos quais o sujeito padece e vela sua perda irreparável. Se me fosse dado alegorizar ainda uma última vez, eu diria que o Brasil é o anjo da história que Benjamin viu em Paul Klee, só que um anjo-Janus, voltado simultaneamente para o passado repleto de destroços e o para o futuro vazio. De um lado, a lama que nos suga (não vai ter Copa!) e nos lembra a miséria do nosso estado, de outro lado a paisagem silenciosa onde florescerão os sonhos pueris da pátria amada abençoada (vai ter Copa!). O fato é que a Copa (vai ter Copa?) se dá entre esses dois extremos, num teste a exigir ininterrupta atenção, e numa afirmação insistente da realidade, diante da qual nossos signos jamais são definitivos.
O jogo se constrói paulatinamente, e não se trata de averiguar se “avançamos” ou “recuamos”, mas de notar que o futebol pode ser a abertura para o que se passa, uma espécie de fenda por onde o corpo avança e se impõe (para a frente, para trás, para os lados, parando, simulando movimentos que nunca se realizarão, realizando movimentos já realizados e outros nunca realizados). A linguagem futebolística é avessa aos ditos claros, mas não só porque se trata de um jogo não verbal: ela é realização, como sabem os teóricos, mas como sabem especialmente os que têm a bola nos pés. Quando se trata de politizar o futebol (“politizar” para o bem ou para o mal: dos Marins e Havelanges à democracia corintiana, no arco que vai do endurecimento da ditatura em 70 à abertura no final da década), descobrimos que ele é escapadiço, e diz sempre mais ou menos do que se espera dele. Se assim é, talvez seja melhor aprender com o futebol, ao invés de esperar que ele diga algo de conclusivo.
Minha ignorância futebolística é crassa. Ainda assim, a substituição de Paulinho por Fernandinho operou uma mágica, no jogo de ontem contra Camarões, e o fato é que se descobriu que podia haver algo entre a alegria que Neymar nos dá de bandeja, a simpatia irresistível de um Fred sempre meio perdido em campo, e a cabeleira inconfundível de David Luiz na zaga, com a elegância de Luiz Gustavo de permeio. Alguma coisa aconteceu.
A alegoria é a diversão e a tentação dos melancólicos. Por que não interpretar tudo como sinal de uma mudança em curso? Fiat lux: e a luz que se fez é o meio de campo entre a areia movediça do pessimismo crônico, de um lado, e a promessa de uma felicidade que nunca sai de campo, de outro. Quem sabe se os últimos episódios da política oficial nos levarão a uma era futura de maior transparência no trato da coisa pública? Quem sabe se a corrupção endêmica da sociedade brasileira (do pobre ao rico, dessa ninguém se safa) vai encontrar seu antídoto nos bilhões que escoarão alegres do pré-sal para as salas de aula? Quem sabe se um dia não precisaremos combater os cartolas, porque eles não existirão mais? Quem sabe se um dia o PMDB será coisa do passado? Quem sabe se o PT se regenera? Quem sabe se o racismo... Se o classismo... Se o meio ambiente... Se a honestidade... Se a cultura...
E agora? Acabo como? Com uma nota melancólica, ou outra, alegre?
Fugir da alegoria talvez seja uma forma de escapar ao dilema, e abrir-se para o que está por vir, nem tenebroso nem feliz. Como disse o poeta da cultura, o pobre jogo “como pode se segura”. Pensando no campo (mas só no campo!), eu diria que ontem talvez tenhamos aprendido que não é preciso gastar todos os recursos defendendo-se da tragédia que insiste em mostrar os dentes, mas tampouco se deve isolar a alegria irresponsável, puramente lúdica, lá na frente.
Agora temos um meio de campo.


PS. Não é segredo que este texto deve muito a José Miguel Wisnik. Insisto que Veneno remédio é o Raízes do Brasil do século XXI. Quem viver, verá.

Ecuador vs Honduras, Curitiba, 20/7/14
Abertura da Copa, São Paulo, 12/7/14


17.6.14

Neste vale a pena naufragar

Cheguei ao fim. O fim sinuoso de Anderline, personagem e narradora de Mar Negro (Ponteio, 2014). Adorei a viagem, a graça da conversa da narradora com o autor, as piscadelas para o leitor, a destreza com que Dau Bastos juntou reflexão fina e humor, despretensão e seriedade, sem jamais ser sério onde podia evitá-lo.
Anderline, a adorável Line, é uma mulher feiíssima, alagoana arretada cuja vida de cão é temperada pela inteligência e agudeza da leitora voraz, ciente afinal de que sua literatura é para poucos. Mas ciente também de que os happy few não são uma camarilha de eleitos, e sim os poucos que conseguem sobrenadar no mar de obviedades e produtos mentais pré-fabricados que as letras oferecem hoje em dia. A prosa de Anderline é papa fina, entre outras razões porque ela não está nem aí para o grande público, que a despreza como a todas as criaturas esquisitas e pobres deste mundo. Line é de uma "grei" (a palavra não me sai da cabeça, desde que a ouvi na boca do Supremo Barbosa, faz uns dias) a quem a República não ouve nem atende. Ainda que ela seja, afinal, uma universitária da era Lula...
Mas o livro de Dau Bastos contém uma angustiada resposta à ilusão do otimismo patrioteiro, que Line põe à prova em sua viagem pelo Leste europeu, rumo ao Oriente, onde a miséria faz par à dureza da paisagem social da terra de Collor, de PC Farias e do Marechal Deodoro da Fonseca. Line, bem feitas as contas, é a versão sofisticada daquele jumento da fábula que ao fim pergunta se "não terei eu toda a vida que carregar a albarda..."
Uma beleza. No início, eu pensava em Reinaldo Moraes, mas depois vi que a viagem era outra, mais engajada. No entanto, como quando li Pornopopeia, ri à beça. E fiquei curioso em saber que viagens, reais e imaginárias, deram sustentação à viagem de Line. Line que é underline, ou melhor, Anderline, e vive a queixar-se do autor, além de buscar sempre os seus semelhantes, isto é, aqueles que se sabem personagens de papel, e que vivem da angústia de sê-lo. Angústia de papel, no papel!
E por falar em piscadelas, se é verdade que "G.H." são as letras postadas no coração do teclado (no caso de Clarice), adorei que Line fosse, afinal, Anderline... Gostei também que ela resistisse, brava e irônica, ao torneio metalinguístico que ameaça tomar conta da trama, e zombasse do poder do autor, para só no final relaxar e lançar-se a um mini-pacto realista, que é sua salvação, a ilusão de saber-se real... Mas, queiram ou não os personagens, e queiram ou não os personagens que todos somos, aquilo ali é um livro real, culto e belo como a língua. É um livro, tanto quanto a felicidade é o fim da literatura: estranha e bonita conclusão, na sua ambiguidade.
Uma delícia, o Mar Negro de Dau Bastos. 

17.5.14

A crítica em tensão

Resenha do último livro de Alfredo Bosi, publicada na revista Pesquisa Fapesp:

Obra de erudição e intervenção, Entre a literatura e a história oferece uma paisagem ampla e profunda da crítica de Alfredo Bosi. Reunindo ensaios, prefácios, depoimentos e entrevistas, o livro se organiza em feixes temáticos que iluminam o balanço e a tensão entre a história e a literatura. Mesmo para os leitores assíduos de Bosi, os textos já conhecidos ganharão nova espessura, como se o conjunto atasse as linhas de um discurso que indaga o poder da literatura diante de seus condicionamentos sociais e históricos. Juntos (re-unidos), os textos são devolvidos ao solo comum que os gerou, onde a literatura se descobrereflexão, jamais puro reflexo, da experiência humana. A prosa límpida e segura abre caminhos diversos, que vão da crítica à história literária, dos discursos ideológicos à reflexão sobre o pensamento, com paradas que exigem do escritor posicionamento ético e moral diante do presente.
Não à toa, quase ao centro da obra, operando como uma mó que afia as ideias, vê-se um daqueles interregnos italianos tão ao gosto de Bosi, onde encontram-se Vico e Leopardi. O primeiro, a enfrentar o impasse entre a valorização do artifício retórico, que o barroco exaltava, e a abstração da razão, que imperava no cartesianismo de seu tempo. O segundo, a apontar, contra a fábula romântica do sujeito sentimental e único, o valor da fabulação mítica nos clássicos.
Em sua solução de compromisso entre o artifício e a razão, aprendemos que, para Vico, as figuras “não são meros ornatos, mas expressões desentranhadas do conhecimento sensível” (p. 133). Quem não vê aqui, como que prefigurada, a paixão do crítico pelo real sensível que nos engaja no mundo? Não se trataria da práxis como a experiência humana concreta que, 200 anos depois de Vico, Gramsci transformará na base de sua concepção da cultura como espaço de emancipação? Em Vico, a fantasia, que a leitura platônica tende a desqualificar, alia-se à memória e ganha foros transformadores, criando um mundo que, conquanto imaginário, jamais se desprende totalmente do real. No cultivo da memória, o acontecido se ressignifica e a literatura se ergue, já não ornato ou codificação cerrada, mas como espaço de criação a partir da história – a mesma história que dispara a voz do crítico diante das urgências do contemporâneo: a energia nuclear, a educação, a religião, o Estado, a ditadura, a violência, a fome, a democracia, o socialismo, a militância na América Latina.
Já em Leopardi a imaginação se projeta no mito como motor da poesia. Em seu isolamento enfermiço, o poeta não repete, contudo, o gesto que se consagraria na figura do gênio romântico, martirizado pela nulidade do mundo. A paisagem, para Leopardi, é porta de acesso a outro tempo, quando a beleza “rebrota” no instante em que a palavra poética ressoa. A poesia cumpre a mais nobre função para o crítico, que compreende amorosamente o isolamento de Leopardi, assim como procura ver, em João Cabral, como o poema logra dar forma e sentido ao drama do sujeito histórico, com o qual o poeta simpatiza e se co-move, dos cassacos de engenho aos severinos seus contemporâneos. Movimento, em suma, propiciado pela literatura, sempre que se escavam as razões do sujeito nas “paixões do cotidiano e nas figuras da memória”. Penso, a esse respeito, na brilhante análise da leitura do mundo e do impacto da escrita em Infância de Graciliano Ramos, no “balé brasileiro da intimidade assimétrica” detectado num conto de Mário de Andrade, no horizonte desinvestido de qualquer transcendência em Lygia Fagundes Telles, no idealismo liberal-democrático do jovem Machado de Assis logo tingido pela melancolia, na proximidade da morte em Reventós, na irrupção do sujeito na poesia fugaz e ágil de Ferreira Gullar, no jogo entre distância e proximidade que rege a viagem poética de Cecília Meireles. Penso, ainda com Bosi, nos rasgos sorelianos de Mariátegui, que jamais descuidou do mito enquanto lavrava, em seu tempo e lugar, o solo do marxismo.
Se reforço a importância do núcleo “italiano”, é por nele perceber a razão de ser e a tarefa da literatura diante da história: devolver, ao sujeito, a singularidade de seu sofrimento e de sua alegria diante do tempo roaz. Não se trata de reduzir o livro a tal núcleo, mas de ali buscar alguns dos móveis do pensamento de Alfredo Bosi. É assim que, ao recatar-se contra o império da forma (os “moinhos de letras e castelos de cartas” [p. 219] em que se perderiam as vanguardas), o crítico reclama para a literatura a função de revelar o “dentro” do sujeito, oferecendo-lhe aquela linguagem eficientecapaz de restituir “dimensões originárias de radiante clareza e rara intensidade” (p. 22). Para tanto, é mister reagir ao império da ideologia, aceitando porém que ela é constitutiva do texto, assim como, em Croce, a fantasia e o conceito, a poesia e a lógica pertencem “ao mesmo fluxo da vida e do espírito humano”. A ideologia, enfim, é sempre parte da literatura, mas jamais será “o núcleo vivo, o fogo, a alma da sua poeticidade, que é intuitiva, figural, imaginária” (p. 249-50).
A atenção à linguagem não descura da longa duração das formações ideológicas, como se vê no inédito “As ideologias e o seu lugar”, diálogo rápido e cortante com Roberto Schwarz. Atentando para a imbricação entre ideias liberais e escravismo em escala global, Bosi relativiza o aspecto “farsesco” atribuído à presença daquelas ideias no Brasil, as quais se dividiriam, na segunda metade do século XIX, entre um liberalismo “excludente, escravista” e outro, “democrático, abolicionista”, cujo porta-voz mais ilustre foi Joaquim Nabuco. Não haveria então “por que isolar o Estado brasileiro como caso único e farsesco da coabitação da ideologia liberal com uma prática escravista. Cá e lá… o lugar dessa triste fusão era o do capital fundiário e da rede de interesses comerciais e políticos que o reproduziam” (p. 239). No trânsito das ideias, os interesses econômicos e as injunções sociais pesam, mas o sujeito pode se libertar ou se deixar cingir pelas malhas da ideologia, que confunde o interesse de uma minoria com o desígnio nacional.
É o desígnio nacional, ou talvez devesse dizer-se o desígnio da maioria, que dá lastro a uma das seções mais fortes do livro: aquela, justamente, das “Intervenções”, umbilicalmente ligada à seção anterior, “Ideologias e contraideologias”. Ali, a visada alerta e penetrante varre com indignação os temas que importam na história do Brasil. E o compasso do espírito se abre generosamente: onde leitores apressados pensariam encontrar tão-só o intelectual católico, campeão da teologia da libertação em seus momentos críticos, descobre-se o admirador da longa história do positivismo no Brasil e na França. Atualizadas pelo “altruísmo” de Comte, as raízes saint-simonianas teriam brotado no Apostolado, carreando simpatias para a luta da classe trabalhadora que a República oligárquica brasileira maltratava. A história é farta em complexidade e paradoxos, já que o sopro original do experimento republicano brasileiro é positivista, embora a República não se reduza a ele.
Tampouco é casual que a educação reponte como tema-chave nessas intervenções e que a compaixão pelos professores, desrespeitados por políticas públicas bisonhas, faça par à análise simpática das diretivas educacionais da Carta de 1934, a única, ao lado da atual Constituição, a inscrever a ampliação da instrução popular num futuro inclusivo. Em 1934 teria vencido momentaneamente a tendência “popular e socializante” do veio positivista gaúcho, cujas contradições se projetam na figura singular de Vargas e se acentuam no Estado Novo.
Mas os experimentos de fundo democratizante que mal se iniciaram em 1930 foram esmagados pelo golpe de 64, e é dos escombros desse futuro em disputa que fala Bosi, em textos escritos entre a década de 1980, em plena abertura política, e nosso próprio tempo. Em todos eles, assim como nos vários textos que esta resenha sequer arranhou, dá-se o exercício daquela “fantasia organizada”, feliz expressão que Celso Furtado encontra em Valéry (p. 323). Mas aqui o “planejamento” é de outra ordem, mais agônica, porque o crítico não tem nas mãos os instrumentos capazes de alterar o rumo da história. Ou talvez tenha, e os vislumbre, quando enlaça objetividade e utopia, selando a ética daquele que “deveria viver em permanente tensão”.

9.5.14

Karajan e a espada

Há dois dias escuto quase ininterruptamente Don Juan, Op. 20, poema sinfônico que catapultou Richard Strauss ao estrelato, em 1889. Em seus pouco mais de vinte anos de idade, embebido, como tantos outros nessa Alemanha que nascia, de Schopenhauer e de Nietzsche, e sob a estrela forte de Wagner, o compositor recusava o caráter “descritivo” da música, apostando fundo na “expressão das emoções”.
Contudo, há passagens e mais passagens que remetem às muitas e deliciosas estrepolias que levam o herói libertino à morte. A propósito, alguns comentadores supõem que o golpe letal que nele desfere D. Pedro (Strauss segue o poema inacabado de Nikolaus Lenau) pode ser sentido no toque levemente discordante de uma trompa, logo depois de um maravilhoso e plácido acorde em lá menor.
Tenho visto no youtube uma das antológicas apresentações de Karajan, com a Filarmônica de Berlim, em Osaka, em 1984. É impressionante: o velho maestro mal se move em sua casaca, e no entanto domina absoluto os músicos. Os planos são belíssimos, especialmente quando a tomada lateral faz pensar na orquestra como um mar que Karajan, ao invés de singrar, controla, como se ondas se formassem com o subir e descer dos arcos.
O curioso é que Karajan adoça o seu mar, e o suposto golpe mortal em Don Juan mal se ouve, ou melhor, não há nada de “discordante” no toque da trompa, logo após o acorde em lá menor. É fácil encontrar a passagem, porque ela vem depois de uma pausa, logo ao final. Neste caso, aos 17’30”:


Já nesta interessantíssima filmagem de um ensaio, seguido de um concerto da Filarmônica de Viena, descobre-se que Karl Bohm “leu” diferente o Don Juan de Strauss. Aqui sim, ouve-se a trompa, discordante. No ensaio, aos 43’58” e aos 44’25”; depois, no concerto, à altura de 1h 03’13”.


28.4.14

Uma banana para Sarah Palin

Na Espanha, Daniel Alves reagiu à agressão racista com um magnífico gesto que instantaneamente tomou a blogosfera. Um google em “Dani Alves banana” dá resultados impressionantes...
Enquanto isso, neste estranho país, Sarah Palin disse em público que, se ela estivesse na Casa Branca, “waterboarding” seria a forma como os terroristas seriam batizados. Quando vi a notícia pela primeira vez, cheguei a pensar que era uma invenção sensacionalista. Mas não.
A banana jogada em campo pode ser transformada em símbolo anti-racista. Mas o que fazer com a demência de Sarah Palin? A agressão do torcedor do Villarreal foi canalizada nas milhares de fotos de gente pelo mundo todo empunhando suas bananas, entre sorrisos e caras zangadas. Civilização é isso: encontrar os canais que revertam o instinto de morte e o atenuem, até que ele vire humor, por exemplo. Mas que graça pode resultar das barbaridades de Palin? Como rir do gozo diante da tortura?
Acho que Sarah Palin venceu. No caso dela, só nos resta jogar a banana de volta e sair por aí cabisbaixos, desfilando a nossa impotência.




26.4.14

A história lá fora

Há em Princeton um Battlefield Park, espécie de sítio arqueológico-patriótico, em que se desenrolou uma das mais sangrentas batalhas da guerra da independência americana. Em janeiro de 1777, tropas inglesas se encontraram com os soldados de Washington ao norte de Trenton, hoje capital de New Jersey. Alguns dos feridos foram tratados na pequena casa dos Clarke, fazendeiros desta região em que abundavam quakers, cuja crença proibia qualquer envolvimento direto na guerra.
A Clarke House, construída por volta de 1772, abriga um pequeno museu que ontem visitei com amigos. Foi uma lição, menos pelo acervo, que faz pensar num humilde e melancólico museu de interior, que pela pessoa que lá estava. Em meio a velhos canhões, armas e objetos relacionados à batalha, encontramos um senhor de olhos profundamente azuis, parados, com uns poucos cabelos brancos compridos escorrendo pela cabeça, como sinais de uma juventude distante que resistisse a desaparecer. Ele era o guia perfeito: deixava-nos à vontade para explorar o acervo e apenas falava quando nos aproximávamos dele. No entanto, o museu era pequeno e quando menos esperávamos já estávamos próximos, e então o ouvíamos.
Seu conhecimento da batalha e da região era notável. Mas o que chamou nossa atenção foi a perfeita combinação de forma e conteúdo no que dizia. Nosso guia era um desses conhecedores da história tão comuns entre os cidadãos americanos: atento aos detalhes, capaz de desfiar uma longa lista de nomes e lugares, tudo na ponta da língua, dito com invejável segurança e nenhuma profundidade. A voz lhe saía monótona, sem que qualquer paixão se metesse ali, sobretudo sem sombra alguma de graça. Nem vem ao caso pensar em ironia, porque ela simplesmente não faz parte daquele mundo: um sorriso, uma piscadela, um duplo sentido, seriam tão estrangeiros ali quanto um quaker a quem fosse dada uma arma em meio à batalha. Aliás, aqueles pesados mosquetes foram desenhados para caçar lebres e pássaros, não para atirar em ingleses.
Sempre fico tocado quando encontro alguém assim. A ingenuidade, a candura e a credulidade fazem desses personagens criaturas doces, como se o mundo manchado lá de fora lhes fosse desconhecido, e eles fossem os representantes de uma humanidade perdida. A fala do nosso guia cobria tudo de pó, pacificava o que narrava, como se a violência fosse um dado externo ao museu, e as armas, bem como o sangue que um dia correu naquela casa, estivessem seguros no passado, aprisionados para nunca mais voltar.
A incapacidade de construir conexões de sentido, de captar a tragédia e a agonia, me faz pensar em como neste país a guerra deve sempre estar além: num passado consagrado, ou então a muitas milhas, em algum Vietnã distante. Não convém pensar na estrutura agrária que está na base das queixas dos colonos. Não cabe refletir sobre o fermento de liberalismo esclarecido que provinha da França e da própria Inglaterra. Da escravidão ou dos índios é melhor nem falar. De guerras de religião, tampouco. O mundo, na exposição cândida do nosso guia, fica preso a uma eterna superfície: nomes, datas, desencadeamentos mínimos, como se um relógio se abrisse e observássemos suas engrenagens. Mas nada de olhar para a peça inteira, e nada de se perguntar sobre o tempo. Ou sobre a história.