1.5.13

Crime and punishment


O que nos separa do crime? Onde, a linha que me separa da morte do Outro?
Dostoiévski a figurou da forma talvez mais assustadora: tal linha inexiste. Matar é simples, rápido e, no limite, indolor. O problema é o que vem depois, a culpa que invade o sujeito e secreta suas fúrias e seus temores. Assim se espera. Assim espero.
Que o soldado nigeriano que, há dois dias em Baga, atirou de volta ao fogo a criança que tentava fugir das chamas, tenha sentido por um momento – um momento que seja – o peso do ato, e que tenha experimentado aquela sensação que nos toma quando deixamos cair um objeto das mãos, como se ele fosse uma parte do corpo subitamente separada de nós.
E que o presidente sinta, quando justifica a alimentação forçada dos prisioneiros em Guantánamo, um estranho gosto, como se fosse sua a goela que a sonda nasogástrica invade, afrontando a greve de fome.
Que... que... que... antes da morte se possa figurar o sofrimento, e que dele nos afastemos.
É a minha oração de primeiro de maio. Num país que aliás esqueceu o primeiro de maio.

9.2.13

Longe do fim: Utopiensium republica


É engraçado como o fim assusta.

Em determinados meios intelectuais, a pecha de “hegeliano”, e a ojeriza por qualquer “filosofia da história”, podem esconder um problema, ou mesmo um sintoma, de um momento na história intelectual em que nos descobrimos impossibilitados de fazer as pazes com o pensamento finalista, como se a crença no fim da história fosse um demônio indesejável, que convém expulsar da mente.

Entretanto, a crença no fim da história abriga todo o pensamento utópico clássico. Vale a pena, aliás, prestar atenção à significação e à etimologia da palavra “fim”, que tem a ver, justamente, com a “fronteira”, inclusive com aquilo que é a fronteira do pensamento.

Nunca é demais lembrar que, no discurso de Thomas Morus, é um viajante, Rafael Hitlodeu, quem desvela, aos fascinados Morus e Pedro Gil, os segredos da ilha da Utopia. O remate de Morus é a quintessência do pensamento utópico (aqui, na tradução de Luís de Andrade, na célebre coleção Os Pensadores): “Porque, se de um lado não posso concordar com tudo o que disse este homem [Rafael Hitlodeu], aliás incontestavelmente muito sábio e muito hábil nos negócios humanos, de outro lado confesso sem dificuldade que há entre os utopianos uma quantidade de coisas que eu aspiro ver estabelecidas em nossas cidades.” E, em seguida: “Aspiro, mais do que espero”.

No original, lê-se: permulta esse in Utopiensium republica, que in nostris ciuitatibus optarim uerius, quam sperarim.

Mesmo para aqueles de nós para quem o latim é grego, fica evidente que a “opção” por “ver” (optarim uerius) não nos liga, necessariamente, à crença no apagamento da história.

Pode não ser pecado, em suma, olhar para o lado de lá da fronteira. O problema é encontrar as lentes que nos deixem ver o que está lá, se é que algo está lá.

13.1.13

genuinamente brasileiro



“Nescau” vem da fusão de Nestlé e Cacau. Segundo o site da Nestlé, ele se chamava Nescáo até 1954, quando passou a se chamar Nescau, para evitar que fosse confundido com Nescão. Me faz pensar no poder do chocolate em varrer a fome pra baixo do tapete. A questão é internacional, como bem lembra o caso da nocilla, na Espanha.

O que ainda não entendi é se Nescão lembra Negão. Enfim, o site da Nestlé explica que “graças à constante inovação, e, principalmente por sua capacidade de falar a linguagem dos jovens, NESCAU lidera com destaque a categoria dos achocolatados. A força da marca migrou para outras categorias de produtos, também com grande sucesso”. Em 1972, continua o instrutivo site, “o produto ganhou ainda uma melhor solubilidade e um composto vitamínico, tornando sua formulação ainda mais saborosa. Nesse ano, foi desenvolvida uma forte campanha de relançamento sob um novo slogan: Super NESCAU, energia que dá gosto”.

Eis um tema interessante: como, em meio a uma ditadura, a publicidade lida com o imaginário da energia e do arranque das crianças. Já a “solubilidade” pode ser pensada em outras frentes. No país do carnaval e de todas as cores, por exemplo, o que representa o chocolate?

Lembro que em 1940 o grande Grande Otelo fez o papel de Chocolate em Céu Azul, de Ruy Costa, com Oscarito e companhia. Mas aí já me desvio do assunto e me ponho críptico. Afinal o Nescau nada tem a ver com o vício. É pura energia que dá gosto.

28.11.12

Falo da PUC: dos padres e de Zé Celso


Às vezes convém meter o bedelho onde não se foi chamado. Mas convém entrar pela lateral, de leve.
A atual crise na PUC-SP revela um traço interessante de uma tensão moderna, que põe em litígio o poder temporal da Igreja. Recapitulando: uma “lista tríplice” com os mais votados candidatos a reitor é enviada ao “grão-chanceler” (o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer), que por sua vez decide escolher o terceiro nome, afrontando o desejo da maioria da comunidade universitária. Não discuto a propriedade dos processos seletivos para os altos cargos universitários. Apenas me chamou a atenção um falo que se ergueu insuspeitamente no meio do debate e que, salvo engano, diz muito sobre o que está em jogo.
A Folha de S.Paulo traz, no Tendências & Debates de hoje, um artigo assinado por três conhecidos professores de Filosofia da PUC-SP e, do outro lado, o artigo de um teólogo jovem (cronologicamente jovem), Edson Luiz Sampel, que defende, armado até os dentes, a posição “confessional, católica e pontifícia” da universidade, arrostando “opositores vorazes” (ah, o frisson dos conservadores, as asas que suas palavras ganham quando eles sentem o vento gelado da novidade entrando pelas narinas!).
A “voracidade” em questão é identificada em todos aqueles que defendem, “debaixo do inconsistente vexilo da independência acadêmica”, um “relativismo cristão ou cristianismo light [sic]”, ou então “outras ideologias”.
A utilização de uma palavra antiga e desusada (vexilo!) faz pensar que estamos diante de uma guerra: o exército de Brancaleone dos modernos perfila sob o estandarte do relativismo, ameaçando o catolicismo fundamental (ou mais propriamente fundamentalista) dos que defendem “os valores autenticamente católicos”.
E lá vamos nós: “autenticamente católicos” para quem, cara pálida?
Uma olhadinha no bom (e temperado) texto dos três filósofos, que é o reverso da tendência representada pelo jovem teólogo, permite lembrar que há uma história do que sejam valores “autenticamente católicos”. Convém lembrar que a efervescência política teve na mesma PUC um espaço importante sob a ditadura, quando o cardeal-arcebispo de São Paulo era D. Paulo Evaristo Arns, não D. Odilo Scherer. A lembrança leva a pensar no que significou, na história recente do catolicismo, o arrefecimento da Teologia da Libertação, a par de uma impressionante guinada à direita que já estava na escolha de Karol Woytila para papa no final dos anos setenta, até essa pá de cal em qualquer espírito autenticamente ecumênico que foi a escolha de Ratzinger, o atual Benedito XVI.
O jovem vociferante do artigo da Folha lembra a encíclica “Populorum Progressio” para lembrar que a Igreja é perita em humanidade. Não custa recordar que a encíclica, do tempo de Paulo VI, é caudatária das ondas do concílio Vaticano II, que se iniciara sob João XXIII ainda nos anos sessenta, num momento em que a Igreja se abria para a força de um discurso popular à esquerda. Exatamente o oposto do que representa hoje o espírito autoritário de muitos dos que falam em nome dos valores “autenticamente católicos”.
Mas eu queria mesmo é falar de um falo, que há de me levar a um sublime destruidor de falos. Explico-me. O jovem articulista, nos seus arrebiques retóricos, defende o direito de Dom Odilo de definir o novo reitor: “O grão-chanceler, autoridade máxima da universidade, nomeia um deles. Fá-lo com cabal discricionariedade, tendo em vista o bem maior da instituição”.
Ah, o poder do inconsciente... O que é esse “fá-lo” que surgiu de repente, atando os cordões do zelo canônico do articulista? Imagino que ele, o articulista, jamais aceitaria a ideia de que o falo lhe subiu do inconsciente e grudou na locução que conecta o verbo ao objeto da ação: “fá-lo”. Mas deixemos isso pra lá, até mesmo porque conservadores em geral não gostam do inconsciente.
Na mesma Folha, descubro que Zé Celso Martinez invadiu ontem o Pátio da Cruz com um gigantesco boneco, espécie de “piñata” a ser destroçada pelas mãos ávidas do povo, que quer devorar o Padre, enquanto o agitador diz que “o papa é um ditador” e que “a Igreja castra”, enquanto “o catolicismo é antropófago”.
Aqui é preciso um pouco de erudição para entender a dignidade profunda do gesto de Zé Celso. É preciso lembrar de Nietzsche, para quem o verdadeiro respeito não estava no salamaleque reverente diante do poder, mas no ato livre que corre sobre o risco da irreverência.
A equação é complexa: a Igreja castra, embora o falo surja na fala daquele que defende o ato discricionário do Padre. Mas tudo se explica, quando se pensa que a louvada discricionariedade (isto é, a escolha autorizada daquele que é capaz de distinguir bem) é um ato de poder, e que este mesmo falo (o “fá-lo” autoritativo do Padre) de repente se confronta com a emergência de um outro falo, erguido irreverentemente, como possibilidade de devoração do Pai – e do pau, e do mais importante pau que é a cruz chantada no pátio da pátria.
Há falos e falos. Há fazeres e fazeres, quereres e quereres. Mas há também um falo simbólico na fala desconexa dos que dançam, um “fá-lo” cujo objeto é cambiante e inseguro e, por isto mesmo, mais livre e mais cheio de possibilidades. O outro falo (um “fá-lo” que talvez lembre uma das mais tristes figuras da história política brasileira, capaz de dizer que “fi-lo porque”...), o outro falo provém da autoridade do Pai castrador, que quer “congruência” ali onde pode reinar, ainda, o poder fertilizante do caos.
É bem verdade que, depois da festa, há que varrer o pátio e despertar a comunidade. Mas, por via das dúvidas, eu prefiro a comunidade que dançou e gritou àquela que temeu cair no samba.
Como dizia um místico, humilde poeta, maior da nossa tribo: “Por que eu extático desfira/ Em seu louvor versos obscenos”.
Evoé!

10.9.12

Quando a bola fora vai pra dentro


Tirar do contexto uma citação em geral serve a desacreditar o autor: tomadas ao pé da letra, sem gesto ou palavras que as enformem, as coisas que dizemos podem pegar mal.
Mas e quando anulamos o contexto de uma difamação, ou de uma crítica severa, e descobrimos algo que quase enaltece, em meio da artilharia alheia? E quando o tiro, visto de lado, faz pensar que o sujeito está fora da mira? Será possível vencer a virulência de um ataque se desviamos a atenção do espectador e lhe mostramos só um lado da cena?
A questão é a um só tempo moral e ótica. Mas, sobretudo, é mais simples do que parece: dependendo de onde estamos no estádio, temos certeza de que a bola fora foi parar no gol.
De um livro de 1897, sobre Machado de Assis:

“É, a meu ver, uma espécie de moralista complacente e doce, eivado de certa dose de contida ironia, como qualidade nativa que de quando em quando costuma enroupar nas vestes de um peculiar humorismo, aprendido nos livros, e a que dá também por vezes uns ares de pessimismo, também aprendido de estranhos.”

Sívio Romero é quase bom quando esquecemos boa parte do que ele escreveu.

27.7.12